Gengiva doente pode atingir outros órgãos


Vascularização permite que bactérias contaminem coração e mulheres podem ter partos prematuros

 

Pericoronite, gengivoestomatite herpética aguda, gengivite simples e descamativa. Por trás desses nomes complicados encontra-se um problema de saúde pública muito comum, principalmente entre os 12 e 74 anos. São as doenças periodontais (que atacam a gengiva). Sem saber o perigo que essa infecção representa, várias pessoas não levam a enfermidade a sério e não a combatem no início. Mas, além de inchaço, sangramento, mal hálito, dor e queda dos dentes, a doença ainda pode levar o indivíduo a desenvolver doenças cardíacas e as mulheres a terem parto prematuro.

Pode parecer difícil compreender como uma contaminação na gengiva pode afetar o coração, mas a explicação é simples. É que, como a gengiva é muito vascularizada (presença de vasos sanguíneos), as bactérias, que são os agentes causadores das periodontites, migram através do sangue. Assim, elas atravessam o organismo e se alojam no músculo cardíaco, causando uma endocardite bacteriana (deformação do local afetado). “Quando o paciente chega a esse quadro, que é muito sério, ele tem febre alta que não cessa e fraqueza. Aí, é preciso interná-lo com urgência e submetê-lo a grandes doses de antibióticos. Algumas vezes, também é necessário fazer uma cirurgia para restaurar o músculo cardíaco”, alerta o periodontista Marcus Werneck.

Além disso, uma pesquisa realizada pela Universidade do Chile e divulgada em novembro deste ano, mostra que algumas doenças periodontais podem infeccionar a placenta e chegar ao feto. O estudo, realizado com 870 mulheres, revela que as chances de uma gestante ter parto prematuro ou dar à luz a uma criança subnutrida é três vezes maior se ela tiver doença periodontal e não iniciar o tratamento quando o quadro ainda é leve.

O problema é grave e, dependendo do grau, difícil de ser tratado, mas fácil de ser prevenido. É que o principal fator que desencadeia as doenças periodontais é a má higienização da boca. Isso causa a formação de placa de microorganismos ao redor do dente que pode aumentar e formar o tártaro. Quando a infecção ataca a raiz e chega ao osso, o dente cai. Mas outros fatores também estão associados à periodontite, como o estresse e a hereditariedade. Além disso, a bactéria (ou vírus, principalmente no caso da gengivoestomatite hérpica aguda) também pode ser transmitida através de talheres ou do beijo na boca. Medicamentos, como os anticoncepcionais, também podem causar o problema.

O tratamento da doença inclui desde a adoção de uso correto da escova e do fio dental, até, em casos mais sérios, à utilização de antibióticos e adesão à cirurgia plástica. A técnica em enfermagem Janaína Melo, 27, descobriu que tinha periodontite à oito meses, quando a gengiva começou a sangrar. Como, por trabalhar na área saúde, já sabia dos perigos que as bactérias poderiam causar em outras áreas do corpo, ela iniciou logo o tratamento. “Fiz sessões de raspagem (técnica onde o dentista remove a placa) durante vários meses. A técnica faz a gengiva sangrar, afinal ela está inflamada, mas não dói porque é usada uma anestesia. Agora, eu só faço a manutenção, com uso do fio dental diariamente e consultas regulares ao dentista”, conta Janaína.

Fonte: DP de 25/12/2005