O MAU NÃO TEM CURA DEFINITIVA, MAS OS DANOS PODEM SER CONTROLADOS
Ranger dos dentes afeta a mastigação
 

Quase todas as pessoas sofrem desta doença, mas poucas têm consciência dela. O Bruxismo – ação de ranger os dentes durante o sono – é uma patologia, na maioria dos casos, de origem psíquica, que se não for tratada em tempo pode trazer sérias conseqüências para o sistema mastigatório. Segundo o odontólogo Marcus Werneck, que fez um estudo sobre o problema, o bruxismo não tem cura definitiva, mas os danos podem ser controlados através da utilização de aparelhos e da mudança de hábitos dos pacientes.

Werneck chegou a essa conclusão a partir dos casos clínicos identificados e tratados em seu consultório e de outras pesquisas científicas feitas sobre o tema nos últimos trinta anos, em várias partes do mundo. Segundo ele, a doença é um problema de difícil solução porque não tem causas especificas, devendo os profissionais que lidam com ela ter uma visão multifatorial e ampla em relação à conduta a ser adotada, no sentido de prevenir e amenizar os danos causados.

O bruxismo é classificado como uma parafuncão oral (um hábito) e tem como conseqüências básicas o desgaste acentuado dos dentes, destruição de trabalhos odontológicos, disfunção articular, dores musculares, hipertrofia muscular e dores de cabeça por contração muscular. Ele se manifesta normalmente à noite, durante o sono, caracterizando-se principalmente pelo atrito dos dentes e apertamento das arcadas entre si. Logo, quem é acometido por ele, não percebe o que está fazendo.

CAUSAS

Conforme Marcus Werneck, existem várias teorias para explicar a origem do bruxismo. Entre elas esta a chamada “oclusal”, que aponta como causa principal o mau posicionamento dos dentes. No entanto, ele afirma que a mais aceita atualmente é a de origem psicogênica (evolução das funções psíquicas), segundo a qual as causas dessa patologia estão relacionadas à personalidade, estilo de vida, e ao estresse vivido pelo indivíduo. “É como se a pessoa descarregasse, no período de sono, suas tensões acumuladas. Quem sofre com isso são os dentes, articulação e musculação facial. Por isso não se pode dizer que o bruxismo tenha uma cura absoluta”.

O odontólogo indica como tratamento a curto prazo exercícios de fisioterapia, utilização de aparelhos eletrônicos e medicação relaxante. E, a longo prazo, Werneck recomenda terapias de aconselhamento psicológico, com o objetivo, inclusive de mudar o estilo de vida do paciente e a utilização de aparelhos interoclusais em acrílico. Esses aparelhos, conforme Marcus, atuam como protetores dos dentes e devem ser colocados na hora de dormir.

O bruxismo ocorre com a maioria das pessoas mas, segundo Werneck, os pacientes que têm consciência da patologia são poucos (de 10 a 20 % dos casos), sendo que em cerca de 5% a doença apresenta características destrutivas para o sistema mastigatório. Através de dados clínicos, Werneck observou que 20 a 30% dos seus pacientes apresentam bruxismo patológico já instalado. “A pior conseqüência é a perda de todos os dentes por desgaste acentuado”, revela. Segundo ele, o processo danoso da doença tem seu desenvolvimento lento e gradual, podendo chegar a ser irreversível.

O bruxismo patológico caracteriza-se por dois tipos de ação: atrito - ou ranger dos dentes - considerado o mais prejudicial, e por apertamento forte dos dentes, sendo que ambos os casos apresentam um desgaste muito acentuado da arcada dentária. No apertamento, segundo Werneck, o sintoma mais clássico é a forte contração e sensibilidade muscular, que permanece nas primeiras horas da manhã. “ O mesmo indivíduo pode apresentar os dois tipos durante seus episódios de bruxismo”, lembra.

De acordo com Marcus Werneck, a intensidade desses episódios pode variar de acordo com o ritmo de vida do indivíduo. Segundo ele, em testes realizados em laboratórios de sono nos Estados Unidos, nos quais os pacientes eram monitorizados, verificou-se que a atividade muscular, e conseqüente intensidade do bruxismo, era maior nos dias de maiores atividades, como exames escolares, dificuldades no trabalho ou, até mesmo, conflitos sentimentais.


Fonte: JC de 18/04/1993